A luminária de estimação.

Maya Guerra
2 min readMay 24, 2022

Tudo que é extremamente repetitivo passa batido. Por isso postes são só postes, mas nem sempre.

Eu gosto de onde vivo, moro exatamente num ponto de transição onde se divide uma parte mais nobre da cidade, e a periferia.

A alguns meses decidi me desligar da vida virtual, nesse mesmo dia o poste da rua que ilumina minha casa se apagou, e somente ele.

As vezes acho curioso a sensação de vida que aparecem para possuir objetos inanimados.

Essa luminária gigante que outrora parecia um holofote virado pro meu lar, agora já estava pausado de sua função ,e acompanhava a mesma experiência que eu; tirando férias de suas fulguras.

Agora já o encaro como uma entidade, tão perto de mim, só ele sabe como é estar tão alto e tão apagado.

É ele que enxerga uma menina tentando dar um jeito nas coisas, lutando contra seus próprios hábitos, tentando desentortar, de manhã ele a espera todo dia para pegar sol e aprecia a vista de ver sua pele branca dourar, a tarde ele a vê sempre com uma corda na mão, pulando como uma criança, levando chicotadas como penitência ,toda vez que erra o pulo, o poste ri, e ela também. A noite chega, e ele a vê sempre olhando para as estrelas, ela olha pro poste, e lamenta pelo seu pescoço que de tão imóvel, não olha para cima ,de tão rígido, que não olha para baixo, apenas para ela.

Ela sente pena do poste, e o poste sente fé nela, porque sabe que os olhos da menina, são seu coração.

Ele mostra que mesmo nesse emaranhado de fios que o liga a tantos lares, e pessoas, que mesmo com tantas conexões ele olha obstinado para uma direção : ela.

E para quem achar que se apagar é ruim, lembre se da beleza da noite, e pra quem quiser achar que estar sempre brilhando é bom, que se lembre que sob os holofotes você atua e se adorna , mas é no escuro que você se libera das performances e se despe de indumentárias.

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Maya Guerra

Escrevendo sobre meu avesso, pensamentos quase sempre noturnos, assim já fica implícito, que nem sempre eu durmo bem.